O amor...
Ah, essa pedra no caminho.
Tudo vai bem, sua cabeça está centrada, seus planos futuros e individualistas estão começando a se concretizar e todo o tempo é seu.
Mas vem a vida e te desvia.
Nunca cheguei a falar bem sobre o que eu penso do amor. Acho que não gosto das definições existentes por aí.
Ainda assim, hoje acordei com uma frase na cabeça.
Diz ela: "Não amar é sofrer; amar é sofrer mais".
Pensei que o contrário também funciona. Acho que amar é sofrer, não amar é sofrer mais.
E explico!
Quando estamos sem amor, o que fazemos? Geralmente, nos arrumamos, saímos, conversamos, mudamos de estilo e de jeito de pentear. Mudamos tudo para, invariavelmente, encontrarmos um novo amor.
Ou canalizamos todo esse sentimento para alguma outra coisa, às vezes com pêlos e quatro patas, às vezes que engordam.
A verdade é que o amor está em tudo, está em toda a volta, está nos caçando como uma onça.
Assisti, pela quarta vez, "Closer" no sábado. Vi que as relações, no fundo, são estranhas. Quanto mais conhecemos alguém, mais achamos que conhecemos e, por isso, mais sabemos quando alguém estaria mentindo.
Só que nós não sabemos porque não queremos saber. Faltamos a aula do "Quando saber quando ele/ela mente para você". Isso acabaria com a graça. Nunca quisemos acreditar que nos mentiriam.
Então, cutucamos o outro até que ele nos diga uma verdade que nós não queremos ouvir, mas nunca descartamos a possibilidade de que ela exista.
É uma auto-mutilação.
Daí, na revolta contra as relações, ao achar que todos mentem, resolvi que ia assistir, pela quinta vez, "Simplesmente Amor".
Esse sim mostra que há esperança.
Quem estraga tudo somos nós, ao não nos sentirmos merecedores, ao achar que está tudo bem e que trair é só instinto, ao duvidar de que há, lá fora, aquela pessoa única que vai nos fazer mais feliz.
Porque sofremos sem amor da mesma maneira que sofremos amando.
É uma questão inerente ao ser.
Precisamos do outro para que saibamos para que serve essa angústia no peito.
E não há nada que possa ser feito.
Cartola diria:
"Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés"
Azar, não é?
Não amar também é sofrer...
quarta-feira, 30 de julho de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Novas vítimas
Existe um grupo com grande expressividade na nova geração. Já não é mais um estilo inovador, ganhou força e tem uma posição sólida entre os jovens. Aliás, espalham-se como se brotassem do chão dos shoppings das cidades.
Sim, estou falando dos emos.
Não estou aqui para explicar a origem do termo, das roupas ou seja lá do que eles absorvam como característica.
Hoje em dia, quase tudo o que existe pode ser definido como emo. Roupas com bolinhas, listras, pretas, vermelhas, verdes, amarelas e todas as combinações possíveis entre elas. Calças apertadas, tênis All Star, gravatas. Pulseiras grossas, lápis de olho, unhas escuras.
Não parece que nosso mundo foi roubado?
Eis que descobri que não posso condená-los. Descobri hoje, andando pela Rua da Praia, como alguém se torna emo.
Não, não, nada a ver com gostar de ouvir emotional hardcore, essa coisa melódica, enquanto pesada; pesada, embora melódica.
Um emo é criado por diversos setores e fatos que, misturados, fazem um adolescente querer chorar num canto escuro.
Basta ter acontecido algo na sua vida, naquela semana - ou até mesmo em um único dia - que lhe deixe tristonho. Briga com a mãe, morte do cachorro, amor impossível, inacabado ou que teve seu fim, nota ruim na escola ou ter batido o dedão do pé na quina da cama.
Basta um pequeno acontecimento que cause mágoa.
Em outras épocas, você ligaria para seus amigos. Mas hoje é tudo muito caro, as pessoas estão muito ocupadas, a violência é muito grande para ficar dando mole na rua.
Ninguém pode, quer ou tem tempo para ajudar.
E ali está você com seu coração vulnerável, andando sozinho pela multidão da Praça da Alfândega, ouvindo FM para ver se surge alguma voz.
Então, uma música começa a tocar. Uma só não, uma série delas!
São bandas formadas por jovens. Eles sabem como você se sente, sabem o que te dói, sabem que terão identificação com esse público se falarem sobre isso e, o mais importante, sabem que isso vende.
Ao ouvir essa música, você pensa: Finalmente! Achei alguém pra me entender!
Sim, jovem incompreendido. Eles juram que te entendem.
Juram, também, que as roupas que usam são as mais legais e que você deveria adotar esse estilo.
Vá lá! Corte o cabelo, faça uma franja, pinte o olho de preto.
No caminho, passe na frente de muitas lojas e veja como elas também estão explorando esse estilo.
Elas sabem, bem como as bandas, o grande público consumidor que têm à disposição.
E é assim que, de repente, surge um novo emo.
Ele olha ao redor e vê que outros fizeram o mesmo.
São todos iguais. Você não está mais sozinho!
Seu vulnerável coração tristonho e solitário tem, agora, muitos semelhantes.
Todos poderão ser felizes unidos na infelicidade coletiva, que não pode terminar.
Afinal, se pararem os motivos para chorar, que graça vai ter em ser tão emotivo?
Os emos são nada além de vítimas de uma sociedade que não compreende a dor adolescente.
As novas vítimas da opressão.
Eles poderiam fazer algo meio Woodstock, mas com roupa e sem lama.
**
Eu não tenho nada contra os emos.
Até ouço algumas dessas músicas.
Tenho o potencial, por assim dizer. Só não pretendo levá-lo adiante.
Sim, estou falando dos emos.
Não estou aqui para explicar a origem do termo, das roupas ou seja lá do que eles absorvam como característica.
Hoje em dia, quase tudo o que existe pode ser definido como emo. Roupas com bolinhas, listras, pretas, vermelhas, verdes, amarelas e todas as combinações possíveis entre elas. Calças apertadas, tênis All Star, gravatas. Pulseiras grossas, lápis de olho, unhas escuras.
Não parece que nosso mundo foi roubado?
Eis que descobri que não posso condená-los. Descobri hoje, andando pela Rua da Praia, como alguém se torna emo.
Não, não, nada a ver com gostar de ouvir emotional hardcore, essa coisa melódica, enquanto pesada; pesada, embora melódica.
Um emo é criado por diversos setores e fatos que, misturados, fazem um adolescente querer chorar num canto escuro.
Basta ter acontecido algo na sua vida, naquela semana - ou até mesmo em um único dia - que lhe deixe tristonho. Briga com a mãe, morte do cachorro, amor impossível, inacabado ou que teve seu fim, nota ruim na escola ou ter batido o dedão do pé na quina da cama.
Basta um pequeno acontecimento que cause mágoa.
Em outras épocas, você ligaria para seus amigos. Mas hoje é tudo muito caro, as pessoas estão muito ocupadas, a violência é muito grande para ficar dando mole na rua.
Ninguém pode, quer ou tem tempo para ajudar.
E ali está você com seu coração vulnerável, andando sozinho pela multidão da Praça da Alfândega, ouvindo FM para ver se surge alguma voz.
Então, uma música começa a tocar. Uma só não, uma série delas!
São bandas formadas por jovens. Eles sabem como você se sente, sabem o que te dói, sabem que terão identificação com esse público se falarem sobre isso e, o mais importante, sabem que isso vende.
Ao ouvir essa música, você pensa: Finalmente! Achei alguém pra me entender!
Sim, jovem incompreendido. Eles juram que te entendem.
Juram, também, que as roupas que usam são as mais legais e que você deveria adotar esse estilo.
Vá lá! Corte o cabelo, faça uma franja, pinte o olho de preto.
No caminho, passe na frente de muitas lojas e veja como elas também estão explorando esse estilo.
Elas sabem, bem como as bandas, o grande público consumidor que têm à disposição.
E é assim que, de repente, surge um novo emo.
Ele olha ao redor e vê que outros fizeram o mesmo.
São todos iguais. Você não está mais sozinho!
Seu vulnerável coração tristonho e solitário tem, agora, muitos semelhantes.
Todos poderão ser felizes unidos na infelicidade coletiva, que não pode terminar.
Afinal, se pararem os motivos para chorar, que graça vai ter em ser tão emotivo?
Os emos são nada além de vítimas de uma sociedade que não compreende a dor adolescente.
As novas vítimas da opressão.
Eles poderiam fazer algo meio Woodstock, mas com roupa e sem lama.
**
Eu não tenho nada contra os emos.
Até ouço algumas dessas músicas.
Tenho o potencial, por assim dizer. Só não pretendo levá-lo adiante.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
O espelho da caçula
Descobri que minha rotina em transportes públicos é minha grande inspiração no momento.
Cada trecho entre Canoas e a capital me faz pensar sobre algo diferente.
Pois estava eu na fila do ônibus para a faculdade quando presenciei aquela cena.
Havia, na fila ao lado, uma menina loirinha, de bochechas rosadas, quase sufocada em tantos casacos para suportar o forte frio daquela noite. Ela abraçava um senhor, que deduzi ser seu pai, e ele retribuia com reciprocidade absoluta.
Um passo atrás, uma menina mais alta, mais velha, já com bochechas não tão rosas.
Ela, então, abraça o mesmo senhor pelas costas, sendo que esse não tinha mais braços para retribuir o gesto, também.
Não precisei de muito para entender que ali estavam duas irmãs e seu pai.
A menorzinha, tão bonitinha em sua jaqueta rosa choque, era mais engraçadinha e carinhosa.
A mais velha, ao perceber estar de fora daquele momento, correu para fazer o que lhe parecia possível.
Não adiantou. A mais nova não saiu da frente do pai, que não conseguiu abraçar sua primogênita. Essa, por sua vez, desistiu e sentou-se no meio-fio.
Ali ficou, talvez pensando que crescer não é o melhor que pode haver. Queria voltar a ser a mais engraçadinha, quem sabe a única.
Foi quando a caçula sentou ao seu lado e a abraçou. Assim, da maneira mais espontânea que poderia ser.
Ficou sentada junto à irmã, olhando para ela e conversando, em um tom de imitação.
Penso que a mais velha não entendeu, ainda, o que significa ter nascido antes. Não viu o poder que tem sobre a menorzinha. Não vê como é bom olhar para ela pensando: já passei por tudo isso, querida. Já fui engraçadinha, bonitinha e bochechuda. Quero ver crescer e evoluir.
Ela ainda não havia percebido que a caçula se espelha nela, e que o fará por muito tempo na vida. Talvez para sempre.
E não percebeu por estar cega pelo medo de perder o abraço do pai, que ele só tenha braços para a outra.
Não entendeu que, com o nascimento da irmã, só ganhou dois braços a mais para abraçá-la.
Cada trecho entre Canoas e a capital me faz pensar sobre algo diferente.
Pois estava eu na fila do ônibus para a faculdade quando presenciei aquela cena.
Havia, na fila ao lado, uma menina loirinha, de bochechas rosadas, quase sufocada em tantos casacos para suportar o forte frio daquela noite. Ela abraçava um senhor, que deduzi ser seu pai, e ele retribuia com reciprocidade absoluta.
Um passo atrás, uma menina mais alta, mais velha, já com bochechas não tão rosas.
Ela, então, abraça o mesmo senhor pelas costas, sendo que esse não tinha mais braços para retribuir o gesto, também.
Não precisei de muito para entender que ali estavam duas irmãs e seu pai.
A menorzinha, tão bonitinha em sua jaqueta rosa choque, era mais engraçadinha e carinhosa.
A mais velha, ao perceber estar de fora daquele momento, correu para fazer o que lhe parecia possível.
Não adiantou. A mais nova não saiu da frente do pai, que não conseguiu abraçar sua primogênita. Essa, por sua vez, desistiu e sentou-se no meio-fio.
Ali ficou, talvez pensando que crescer não é o melhor que pode haver. Queria voltar a ser a mais engraçadinha, quem sabe a única.
Foi quando a caçula sentou ao seu lado e a abraçou. Assim, da maneira mais espontânea que poderia ser.
Ficou sentada junto à irmã, olhando para ela e conversando, em um tom de imitação.
Penso que a mais velha não entendeu, ainda, o que significa ter nascido antes. Não viu o poder que tem sobre a menorzinha. Não vê como é bom olhar para ela pensando: já passei por tudo isso, querida. Já fui engraçadinha, bonitinha e bochechuda. Quero ver crescer e evoluir.
Ela ainda não havia percebido que a caçula se espelha nela, e que o fará por muito tempo na vida. Talvez para sempre.
E não percebeu por estar cega pelo medo de perder o abraço do pai, que ele só tenha braços para a outra.
Não entendeu que, com o nascimento da irmã, só ganhou dois braços a mais para abraçá-la.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Direto de outros tempos
Eu tinha um fotolog onde escrevia, praticamente, todos os dias.
Acho que tirava fotos na minha máquina digital e pensava: essa vai dar post.
Por um tempo, virou vício.
De repente, vi que tinha colocado imagens demais de pessoas que não mereciam, de fatos que não eram importantes, de festas que já tinham passado há muito tempo.
Percebi que não tinha motivo para publicar nada.
E passou um dia, dois, vários.
Passou muito tempo até hoje, quando tive que procurar um texto que me pediram.
Deu uma certa saudade e lembrei que escrevi boas coisas lá, até.
Resolvi republicar aqui, agora, o que eu achar mais legal lá.
Até parece que eu tenho uma grande produção para fazer isso.
Mas não quero deixar de postar aqui, como eu fiz lá, nem quero deixar eles caírem no esquecimento.
Aí vai o primeiro, que é curtinho já que esse foi explicativo.
**
O arco-íris
Arco-íris que apareceu na praia pra me alegrar.
Na verdade, ele me faz pensar.
Pensar em coisas que não tem começo nem fim definidos.No que aparece de vez em quando e some, sem deixar vestígio.
Pensar em oportunidades, amizades e amores que eu deixei passar por pensar que eles voltariam a surgir. E que não surgiram mais.
Pensar na relatividade do tempo, nas maravilhas da vida, por que os olhos resolveram enxergar só o que convinha.
Pensar como é vã a futilidade que se vive hoje quando, no fundo, tudo o que se espera é um momento como esse, quando se pode olhar pela janela e enxergar que quando o sol surge depois da chuva pode dar um arco-íris.
Quero mais magia nessa vida.
E mais vida na magia.
Quero o pote que se esconde no final do arco.
(19/03/2007)
Acho que tirava fotos na minha máquina digital e pensava: essa vai dar post.
Por um tempo, virou vício.
De repente, vi que tinha colocado imagens demais de pessoas que não mereciam, de fatos que não eram importantes, de festas que já tinham passado há muito tempo.
Percebi que não tinha motivo para publicar nada.
E passou um dia, dois, vários.
Passou muito tempo até hoje, quando tive que procurar um texto que me pediram.
Deu uma certa saudade e lembrei que escrevi boas coisas lá, até.
Resolvi republicar aqui, agora, o que eu achar mais legal lá.
Até parece que eu tenho uma grande produção para fazer isso.
Mas não quero deixar de postar aqui, como eu fiz lá, nem quero deixar eles caírem no esquecimento.
Aí vai o primeiro, que é curtinho já que esse foi explicativo.
**
O arco-íris
Arco-íris que apareceu na praia pra me alegrar.Na verdade, ele me faz pensar.
Pensar em coisas que não tem começo nem fim definidos.No que aparece de vez em quando e some, sem deixar vestígio.
Pensar em oportunidades, amizades e amores que eu deixei passar por pensar que eles voltariam a surgir. E que não surgiram mais.
Pensar na relatividade do tempo, nas maravilhas da vida, por que os olhos resolveram enxergar só o que convinha.
Pensar como é vã a futilidade que se vive hoje quando, no fundo, tudo o que se espera é um momento como esse, quando se pode olhar pela janela e enxergar que quando o sol surge depois da chuva pode dar um arco-íris.
Quero mais magia nessa vida.
E mais vida na magia.
Quero o pote que se esconde no final do arco.
(19/03/2007)
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Um dia a mais
O Dia dos Namorados surge a partir de São Valentim, bispo que foi contra a proibição do imperador Caldeus II de que fossem realizados casamentos em seu reino, a fim de criar um exército mais forte. O imperador acreditava que os jovens que não tivessem família se alistariam mais fácil. Valentim, no entanto, continuou a realizar as cerimônias em segredo. Ao ser descoberto, foi preso. Nesse período, recebia recados e presentes de jovens que diziam ainda acreditar no amor. O dia de São Valentim é comemorado em 14 de fevereiro. No Brasil, 12 de junho é Dia dos Namorados por ser véspera do dia de Santo Antônio, o nosso casamenteiro.
Simples assim.
De uns tempos para cá, o comércio se aproveita disso tudo para nos convencer, pobres amantes, de que devemos presentear nossos contemplados.
Nesse dia, especificamente.
Criam uma obrigatoriedade material entre os amados e uma sensação de indiferença entre os que não têm com quem, ou por que, trocar presentes.
Mas o tempo do amor, meus caros, não é o tempo do relógio.
Todos os dias seriam passíveis de presentes e de comemorações.
Não são necessários os corações voadores do shopping para que se lembre o quanto se ama.
Assim, cada mensagem de texto, ligação de longe, minuto de encontro são considerados grandes presentes.
Presentes, também, no sentido de tempo, de estarem acontecendo nesse momento.
Não vou aqui sucumbir ao clichê de dizer "amem todos os dias", ou "todo dia é dia de amar".
Não tenho autoridade nenhuma para explicar isso para quem está lendo.
Apenas digo que hoje não é um dia tão melhor que o outro.
Não deveríamos ter namorados por um dia.
Não saiam atrás de companhia para essa noite.
Não vale a pena.
Considerem-se amados todos os dias.
Considerem-se amados, hoje, um dia a mais.
Já diria Quintana, em Bilhete:
"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda..."
É um bom jeito de pensar, mesmo que adore quando alguém grita de cima de um telhado.
**
Feliz Dia dos Namorados para os colegas que se gostam, para os amigos que se curtem, para os que param no meio do centro, para os que almoçam juntos, para os que tem medo do que é e, mais ainda, do que pode vir a ser.
Simples assim.
De uns tempos para cá, o comércio se aproveita disso tudo para nos convencer, pobres amantes, de que devemos presentear nossos contemplados.
Nesse dia, especificamente.
Criam uma obrigatoriedade material entre os amados e uma sensação de indiferença entre os que não têm com quem, ou por que, trocar presentes.
Mas o tempo do amor, meus caros, não é o tempo do relógio.
Todos os dias seriam passíveis de presentes e de comemorações.
Não são necessários os corações voadores do shopping para que se lembre o quanto se ama.
Assim, cada mensagem de texto, ligação de longe, minuto de encontro são considerados grandes presentes.
Presentes, também, no sentido de tempo, de estarem acontecendo nesse momento.
Não vou aqui sucumbir ao clichê de dizer "amem todos os dias", ou "todo dia é dia de amar".
Não tenho autoridade nenhuma para explicar isso para quem está lendo.
Apenas digo que hoje não é um dia tão melhor que o outro.
Não deveríamos ter namorados por um dia.
Não saiam atrás de companhia para essa noite.
Não vale a pena.
Considerem-se amados todos os dias.
Considerem-se amados, hoje, um dia a mais.
Já diria Quintana, em Bilhete:
"Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda..."
É um bom jeito de pensar, mesmo que adore quando alguém grita de cima de um telhado.
**
Feliz Dia dos Namorados para os colegas que se gostam, para os amigos que se curtem, para os que param no meio do centro, para os que almoçam juntos, para os que tem medo do que é e, mais ainda, do que pode vir a ser.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Guerra é guerra
O trem aparece na curva dos trilhos.
Enquanto se aproxima com seus faróis fortes e o barulho que lembra um metal cortado, ou cortando, os que esperam andam um passo para frente.
"Não ultrapasse a linha amarela", diz a placa presa ao muro.
Passam os vagões.
Os olhos acompanham o caminho das portas, esperando que alguma pare logo em sua frente.
Há um lugar vago lá dentro.
Miragem!
A condução metálica pára. A entrada está ali, logo ali.
As pessoas se espremem frente ao vidro, montando uma espécie de barreira para os que esperam sair.
É guerra, ou algo muito próximo disso.
Abrem-se as portas e a manada sai em disparada rumo ao objetivo: aquele lugar vago.
Sentar. Como é bom sentar no trem.
Passar vinte e cinco minutos sentado.
Apenas um consegue.
Só cabe um!
Talvez, se aquela moça que está mais no canto fosse mais magra, coubessem dois. É isso o que passa na cabeça dos combatentes, embora não revelem.
Mas não. Cabe apenas um.
O vencedor.
E ele senta, ajeita o corpo com uma típica reboladinha.
Encosta sua lombar no assento vermelho, ainda quente devido ao último sobrevivente.
Encosta e olha ao redor, observa todos os que ficaram de pé.
Em sua face, o visível ar de vitória, o claro sorriso no canto da boca e o olhar alto, como quem diz:
"Eu senteeeei, vocês nããão!"
Um típico grito infantil, que irrita os perdedores desde sempre.
Perdedores esses que, como urubus, esperam por uma nova oportunidade enquanto agarram-se a sua única possibilidade, materializada em longos canos gelados.
***
...o trem é um zoológico, um circo, um parque. É, praticamente, um Beto Carrero World que eu freqüento todos os dias.
(claro que as outras pessoas devem pensar a mesma coisa e me colocar junto. ninguém está livre!)
Enquanto se aproxima com seus faróis fortes e o barulho que lembra um metal cortado, ou cortando, os que esperam andam um passo para frente.
"Não ultrapasse a linha amarela", diz a placa presa ao muro.
Passam os vagões.
Os olhos acompanham o caminho das portas, esperando que alguma pare logo em sua frente.
Há um lugar vago lá dentro.
Miragem!
A condução metálica pára. A entrada está ali, logo ali.
As pessoas se espremem frente ao vidro, montando uma espécie de barreira para os que esperam sair.
É guerra, ou algo muito próximo disso.
Abrem-se as portas e a manada sai em disparada rumo ao objetivo: aquele lugar vago.
Sentar. Como é bom sentar no trem.
Passar vinte e cinco minutos sentado.
Apenas um consegue.
Só cabe um!
Talvez, se aquela moça que está mais no canto fosse mais magra, coubessem dois. É isso o que passa na cabeça dos combatentes, embora não revelem.
Mas não. Cabe apenas um.
O vencedor.
E ele senta, ajeita o corpo com uma típica reboladinha.
Encosta sua lombar no assento vermelho, ainda quente devido ao último sobrevivente.
Encosta e olha ao redor, observa todos os que ficaram de pé.
Em sua face, o visível ar de vitória, o claro sorriso no canto da boca e o olhar alto, como quem diz:
"Eu senteeeei, vocês nããão!"
Um típico grito infantil, que irrita os perdedores desde sempre.
Perdedores esses que, como urubus, esperam por uma nova oportunidade enquanto agarram-se a sua única possibilidade, materializada em longos canos gelados.
***
...o trem é um zoológico, um circo, um parque. É, praticamente, um Beto Carrero World que eu freqüento todos os dias.
(claro que as outras pessoas devem pensar a mesma coisa e me colocar junto. ninguém está livre!)
quarta-feira, 21 de maio de 2008
A escuta que não ouvia
Na hora de dormir, um dia desses, minha irmã voltou a comentar uma história antiga comigo.
Quando eu tinha uns cinco anos, mais ou menos, já estava patinando.
Meu professor me corrigia porque eu girava para um outro lado.
Minha mãe começou a reclamar porque eu estava vendo televisão com um volume muito alto, e muito de perto.
E eu nem entendia muito o porquê de tudo aquilo.
Foi quando minha irmã foi ao médico porque tinha problemas respiratórios, se eu não me engano.
Eu fui junto.
O doutor perguntou "e essa aqui, como está?". Minha mãe respondeu falando sobre o volume da televisão.
Ao examinar meus ouvidos, parece que o médico até se assustou.
Não vou saber descrever o que era meu tímpano naquele momento.
Sei que eu estava com 55% da audição prejudicada.
Mais um pouco e aquela otite me levava à um tanto de surdez.
Problemas no ouvido prejudicam o equilíbrio, também.
Por isso eu girava pro lado errado. Eu ia para onde conseguisse.
Sempre soube que a culpa não era minha.
Depois de duas cirurgias, drenos e tampões para poder tomar banho de mar, aqui estou eu, ouvindo plenamente.
No dia em que a minha irmã comentou disso, me dei conta de muitas coisas.
Quando parei de patinar, eu fazia os melhores "currupios" da minha categoria.
Tinha uma facilidade incrível para girar.
O tempo foi passando, eu entrei na faculdade de jornalismo e meu segundo estágio é na rádio-escuta.
Hoje, eu passo ouvindo rádio quatro horas por dia.
Quatro horas de programação.
Meu trabalho depende do quanto eu ouço.
Logo eu, que ouvia só um pouco mais de 40% das coisas.
A ironia do destino sempre me surpreende.
***
- Hoje tu ouve muito bem, né Aloha? Que doidera.
- Sim, eu ouço tudo. Ouço até bem mais do que eu queria.
...e as risadas pararam para que as duas pudessem dormir.
Quando eu tinha uns cinco anos, mais ou menos, já estava patinando.
Meu professor me corrigia porque eu girava para um outro lado.
Minha mãe começou a reclamar porque eu estava vendo televisão com um volume muito alto, e muito de perto.
E eu nem entendia muito o porquê de tudo aquilo.
Foi quando minha irmã foi ao médico porque tinha problemas respiratórios, se eu não me engano.
Eu fui junto.
O doutor perguntou "e essa aqui, como está?". Minha mãe respondeu falando sobre o volume da televisão.
Ao examinar meus ouvidos, parece que o médico até se assustou.
Não vou saber descrever o que era meu tímpano naquele momento.
Sei que eu estava com 55% da audição prejudicada.
Mais um pouco e aquela otite me levava à um tanto de surdez.
Problemas no ouvido prejudicam o equilíbrio, também.
Por isso eu girava pro lado errado. Eu ia para onde conseguisse.
Sempre soube que a culpa não era minha.
Depois de duas cirurgias, drenos e tampões para poder tomar banho de mar, aqui estou eu, ouvindo plenamente.
No dia em que a minha irmã comentou disso, me dei conta de muitas coisas.
Quando parei de patinar, eu fazia os melhores "currupios" da minha categoria.
Tinha uma facilidade incrível para girar.
O tempo foi passando, eu entrei na faculdade de jornalismo e meu segundo estágio é na rádio-escuta.
Hoje, eu passo ouvindo rádio quatro horas por dia.
Quatro horas de programação.
Meu trabalho depende do quanto eu ouço.
Logo eu, que ouvia só um pouco mais de 40% das coisas.
A ironia do destino sempre me surpreende.
***
- Hoje tu ouve muito bem, né Aloha? Que doidera.
- Sim, eu ouço tudo. Ouço até bem mais do que eu queria.
...e as risadas pararam para que as duas pudessem dormir.
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