Não quis escrever sobre o seqüestro da menina de São Paulo. Agora que já passou um tempo, posso afirmar que ninguém mais fala tanto sobre isso.
Acabou. Já foi.
Não é mais novidade.
Não que seqüestros no Brasil possam figurar na categoria "novidades". Todos os dias, inúmeros casos semelhantes acontecem em muitos pontos do país, bem como por inúmeros motivos.
Também, não vamos dizer que essa foi a primeira rejeição amorosa que virou tragédia por aqui. Não sejamos bobos.
O que atraiu tanto, então?
O show.
Mas não quero falar sobre isso, também. Muitos já questionaram o papel da imprensa nesse caso específico e eu seria apenas mais uma voz no coro.
O que me intriga é o que há de errado em viver uma vida simples. Por que, afinal, as pessoas precisam de grandes tragédias ou grandes conquistas para se sentirem plenas?
As conquistas eu até entendo. Uma vida de objetivos prevê uma vitória no final.
Acontece que, na falta de perspectiva gloriosa, acredita-se que uma grande tristeza tem o seu valor.
Vivemos em uma sociedade que julga, mesmo sem poder para tal, não pelo que alguém é ou faz, mas pelo que parece ser ou fazer.
Não precisa cantar, tem estúdio que conserta a voz.
Não precisa saber escrever, tem gente que te ajuda na correção.
Não precisa ser bom para conseguir o tal emprego, basta na entrevista convencer de que é.
Se você parece, meio caminho andado para acreditarem que você é.
O espetáculo abre as portas para aquele que sofre, aquela que apanha do marido, aquele que é traído. Para a mãe que perdeu a filha, para a família que perdeu a casa na enchente.
Quinze minutos de fama.
Abanem e sorriam para as câmeras, por favor.
De quem é a culpa? Falta ética na mídia? Condenemos os jornalistas, oh, raça que se vale da tristeza alheia (raça a que quase pertenço, inclusive)?
Não.
O que vemos é reflexo dos interesses de um público que não planeja o futuro. Que não se imagina no topo por esforço.
Esse público compõe a parcela que mais consome esse tipo de entretenimento.
Um público que quer “sensacionalizar” uma vida comum, a ponto de achar que isso tudo valoriza a existência.
O que esperar de uma sociedade que faz da morte um acontecimento digno de milhares de visitantes? Onde estão esses visitantes quando o assunto é, realmente, de interesse público?
A vida anda tão complicada que a fama vem do lado inverso. São artistas pelo avesso. Atores de uma vida que, de tão normal, precisa de uma luz para ter graça.
O público não quer mais aplaudir e só.
Quer, a qualquer custo, fazer da vida um espetáculo.
Uma pena.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Um tempo em silêncio
Minha família tem casa há 25 anos na praia de Bom Jesus, "um lugarzinho no meio do nada, com sabor de chocolate e cheiro de terra molhada".
O balneário fica entre Curumim e Arroio do Sal, dois municípios litorâneos que nem têm cara disso.
Os primeiros passos da Tatzie, minha irmã, foram lá, até onde lembro de terem me contado. Ela tinha 15 dias quando foi a primeira vez.
Eu vou desde sempre, também. Lógico.
Tenho fotos onde apareço engatinhando na areia, segurando a mão do meu avô enquanto espero a onda chegar, todas essas coisas.
Passei o fim de semana em Bom Jesus com a família. Choveu no sábado, o domingo estava meio frio, tudo descaracterizava o sentido de ir para a praia.
No entanto, não dava vontade de ir embora.
O silêncio de lá conforta.
De certa forma, meus ouvidos descansaram. O telefone tocava pouco, não haviam buzinas ou barulhos de acidentes.
Não houve discussão. Não houve discordância.
Só o silêncio, a calmaria, a brisa que vinha e batia no rosto.
O cheiro do mar...
Ultimamente, os dias andam tão cheios e tão corridos que não há tempo de se ficar em silêncio.
Aliás, as pessoas perdem inúmeras oportunidades de ficarem quietas. Talvez por acharem que devem falar automaticamente, talvez por incapacidade de não falar. Preferem passar mensagens medíocres, falar besteira, incomodar de alguma forma.
Bom Jesus me dá o silêncio de presente, onde minha mãe ouve o canto do bem-te-vi e eu ouço meus próprios pensamentos.
Quando passamos uma mensagem, existem várias partes envolvidas. Simplificando o caminho, teremos nós que a emitimos e aqueles que a receberão.
Portanto, quando falamos, escrevemos ou queremos nos expressar de alguma maneira, devemos imaginar as possíveis reações daqueles que receberão a informação.
Tudo é passível de interpretação.
Bom Jesus me permite uma autocomunicação. Não que eu fale sozinha e converse comigo mesma, mas eu sei que mensagem quero mandar para mim. Mais importante: sei como quero que EU entenda o que EU acabei de dizer.
O silêncio vale mais que mil palavras, nos diriam os clichês.
Sou obrigada a concordar.
O silêncio tem me preenchido.
Por mim, não teria voltado de Bom Jesus. Teria me refugiado em sua quietude.
Quero férias do barulho, das palavras e das falas desmedidas.
Infelizmente, não tem como. Isso tudo é o que temos para o momento.
Então, vou cuidar das palavras que uso, das opiniões que tenho, dos ouvidos que ouvem.
No fundo sei que sempre terei dois dias em Bom Jesus.
O balneário fica entre Curumim e Arroio do Sal, dois municípios litorâneos que nem têm cara disso.
Os primeiros passos da Tatzie, minha irmã, foram lá, até onde lembro de terem me contado. Ela tinha 15 dias quando foi a primeira vez.
Eu vou desde sempre, também. Lógico.
Tenho fotos onde apareço engatinhando na areia, segurando a mão do meu avô enquanto espero a onda chegar, todas essas coisas.
Passei o fim de semana em Bom Jesus com a família. Choveu no sábado, o domingo estava meio frio, tudo descaracterizava o sentido de ir para a praia.
No entanto, não dava vontade de ir embora.
O silêncio de lá conforta.
De certa forma, meus ouvidos descansaram. O telefone tocava pouco, não haviam buzinas ou barulhos de acidentes.
Não houve discussão. Não houve discordância.
Só o silêncio, a calmaria, a brisa que vinha e batia no rosto.
O cheiro do mar...
Ultimamente, os dias andam tão cheios e tão corridos que não há tempo de se ficar em silêncio.
Aliás, as pessoas perdem inúmeras oportunidades de ficarem quietas. Talvez por acharem que devem falar automaticamente, talvez por incapacidade de não falar. Preferem passar mensagens medíocres, falar besteira, incomodar de alguma forma.
Bom Jesus me dá o silêncio de presente, onde minha mãe ouve o canto do bem-te-vi e eu ouço meus próprios pensamentos.
Quando passamos uma mensagem, existem várias partes envolvidas. Simplificando o caminho, teremos nós que a emitimos e aqueles que a receberão.
Portanto, quando falamos, escrevemos ou queremos nos expressar de alguma maneira, devemos imaginar as possíveis reações daqueles que receberão a informação.
Tudo é passível de interpretação.
Bom Jesus me permite uma autocomunicação. Não que eu fale sozinha e converse comigo mesma, mas eu sei que mensagem quero mandar para mim. Mais importante: sei como quero que EU entenda o que EU acabei de dizer.
O silêncio vale mais que mil palavras, nos diriam os clichês.
Sou obrigada a concordar.
O silêncio tem me preenchido.
Por mim, não teria voltado de Bom Jesus. Teria me refugiado em sua quietude.
Quero férias do barulho, das palavras e das falas desmedidas.
Infelizmente, não tem como. Isso tudo é o que temos para o momento.
Então, vou cuidar das palavras que uso, das opiniões que tenho, dos ouvidos que ouvem.
No fundo sei que sempre terei dois dias em Bom Jesus.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
A nova-velha língua
Se você ler esse texto em até quatro anos, pode ser que eu esteja escrevendo em português correto.
Mas, caso passe de 31 de dezembro de 2012 - dia 1° de janeiro de 2013, por exemplo - é possível que eu tenha cometido alguns erros.
Desculpem, assinaram ontem uma lei que reforma a língua portuguesa e algumas regras foram extintas. Nem sei se vou utilizá-las nesse texto que acabei de começar a escrever, mas já quero garantir que não pensem que eu sou uma analfabeta.
Enquanto nos ambientamos com a nova escrita, sugiro que vocês planejem abrir uma gráfica ou uma editora. Ou os dois. Esses, sim, vão colher frutos.
Me disseram que a idéia é aproximar os países que falam português, unificando a língua.
Sempre achei que uma das graças do intercâmbio fosse, exatamente, o enriquecimento cultural, que pode se basear em aprender novos idiomas.
Aqui não. Preferem que os oito países escrevam no mesmo jeito. Pra que complicar? Pra que manter um fio de singularidade, de diferencial, de regra pra chamar de sua?
Vamos falar todos da mesma maneira! Todos em uma só voz!
Azar que a sonoridade é diferente. Azar que não pensamos da mesma maneira. Azar que não somos iguais.
A língua portuguesa quer ser universal.
Deixa ser.
**
Vou deixar aqui, então, um exemplo do que vai mudar. Vai ser assim:
"No saguão do aeroporto, passageiros não aguentavam mais a espera. Não tinham ideia de quando sairia o voo. Alguns deles creem que será logo, enquanto leem e trocam jornais e revistas. Foi quando ouviram falar que havia uma jiboia solta por ali. Em uma atitude heroica, um aventureiro consegue segurar a cobra e acaba com a gritaria. Teve quem julgasse a atitude antirreligiosa. 'Senti meus pelos arrepiarem', disse uma das testemunhas.
Entre os que esperavam o embarque, estava o contrarregra da novela das oito. 'Sempre enjoo em voos', comentou.
Nesse instante, a aeronave para na pista. Era hora de partir."
**
Minha mãe sempre diz que não gosta de pequenas preguiças. Não arrumar a cama, guardar a roupa, lavar a louça, por exemplo. Limpar a casa por cima, ir até metade do caminho, desistir por pouco, essas coisas.
Eu gosto dos acentos diferenciais.
Não usá-los seria uma pequena preguiça.
Agora é uma unificação.
As coisas mudam.
**
Sim, eu sou contra a reforma ortográfica.
Perdão.
Mas, fazer o quê?
Mas, caso passe de 31 de dezembro de 2012 - dia 1° de janeiro de 2013, por exemplo - é possível que eu tenha cometido alguns erros.
Desculpem, assinaram ontem uma lei que reforma a língua portuguesa e algumas regras foram extintas. Nem sei se vou utilizá-las nesse texto que acabei de começar a escrever, mas já quero garantir que não pensem que eu sou uma analfabeta.
Enquanto nos ambientamos com a nova escrita, sugiro que vocês planejem abrir uma gráfica ou uma editora. Ou os dois. Esses, sim, vão colher frutos.
Me disseram que a idéia é aproximar os países que falam português, unificando a língua.
Sempre achei que uma das graças do intercâmbio fosse, exatamente, o enriquecimento cultural, que pode se basear em aprender novos idiomas.
Aqui não. Preferem que os oito países escrevam no mesmo jeito. Pra que complicar? Pra que manter um fio de singularidade, de diferencial, de regra pra chamar de sua?
Vamos falar todos da mesma maneira! Todos em uma só voz!
Azar que a sonoridade é diferente. Azar que não pensamos da mesma maneira. Azar que não somos iguais.
A língua portuguesa quer ser universal.
Deixa ser.
**
Vou deixar aqui, então, um exemplo do que vai mudar. Vai ser assim:
"No saguão do aeroporto, passageiros não aguentavam mais a espera. Não tinham ideia de quando sairia o voo. Alguns deles creem que será logo, enquanto leem e trocam jornais e revistas. Foi quando ouviram falar que havia uma jiboia solta por ali. Em uma atitude heroica, um aventureiro consegue segurar a cobra e acaba com a gritaria. Teve quem julgasse a atitude antirreligiosa. 'Senti meus pelos arrepiarem', disse uma das testemunhas.
Entre os que esperavam o embarque, estava o contrarregra da novela das oito. 'Sempre enjoo em voos', comentou.
Nesse instante, a aeronave para na pista. Era hora de partir."
**
Minha mãe sempre diz que não gosta de pequenas preguiças. Não arrumar a cama, guardar a roupa, lavar a louça, por exemplo. Limpar a casa por cima, ir até metade do caminho, desistir por pouco, essas coisas.
Eu gosto dos acentos diferenciais.
Não usá-los seria uma pequena preguiça.
Agora é uma unificação.
As coisas mudam.
**
Sim, eu sou contra a reforma ortográfica.
Perdão.
Mas, fazer o quê?
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Liquidificador
A prefeitura municipal de Porto Alegre instalou, em julho, sinaleiras sonoras para auxiliar a travessia de pedestres com deficiência visual nas faixas de segurança. Uma fica na sinaleira do Centro, quase na esquina da calçada que dá acesso à estação de trem Mercado.
Muitas pessoas passam por essa faixa em direção ao trem, a todo o momento. No começo e no fim da tarde, então, o movimento potencializa incrivelmente.
Logo que foram instaladas, muitos se perguntaram para que servia aquele botãozinho, que não acelerava o processo do sinal e apitava assim que ficava verde para pedestre.
Naquele momento, pensei comigo: logo vai estar estragado. Todos, inclusive os que não possuem deficiência alguma, vão apertar o botão, reduzindo a vida útil do aparelho.
Pois hoje tive a prova. Influenciado pela pressa e pela falta de eduçação, vi um homem fazendo exatamente o que eu havia imaginado. Na rua, nenhum deficiente visual para ouvir os apitos constantes de aviso.
A sinaleira apitava para a falta de educação.
Dia 5 de outubro temos eleições municipais. Não tenho vergonha de assumir que ainda não sei em quem votar para vereador.
Não voto em Porto Alegre, mas o meio sempre me fez acompanhar mais os candidatos da capital.
Porto Alegre está em todos os veículos, lógico.
Não tenho candidato. Não vejo ninguém que me agrade tanto assim.
Queria alguém nem tão novo, nem tão velho. Não vejo coerência nessa juventude e nem eficiência nos que concorrem pela quadragésima sétima vez.
Estou com a impressão de que estão passando as informações em um liquidificador e me fazendo absorver.
É uma papinha eleitoral.
Eu consigo fazer um pout-pourri de todos os jingles dos candidatos a prefeitura canoense.
Tudo bem, eu ainda me interesso por política.
Quero ver se arranjo um candidato pra Câmara.
Me preocupa o cara que aperta o botão da sinaleira sonora só por apertar.
Ele consome a mesma papinha que eu.
A diferença é que, acredito eu, ele gosta assim.
Não dá trabalho nem gasta os dentes.
Daqui um tempo, ele vai ser um dos primeiros a reclamar, no aconchego da visão, que a política não presta, que o país está indo ladeira abaixo...
Estão nos criando uma zona confortável na falta de informação.
Difícil escapar dessa rede.
Enfim, o que eu quero falar?
Em terra de cego, quem tem olho vê cada coisa que nem acredita...
Muitas pessoas passam por essa faixa em direção ao trem, a todo o momento. No começo e no fim da tarde, então, o movimento potencializa incrivelmente.
Logo que foram instaladas, muitos se perguntaram para que servia aquele botãozinho, que não acelerava o processo do sinal e apitava assim que ficava verde para pedestre.
Naquele momento, pensei comigo: logo vai estar estragado. Todos, inclusive os que não possuem deficiência alguma, vão apertar o botão, reduzindo a vida útil do aparelho.
Pois hoje tive a prova. Influenciado pela pressa e pela falta de eduçação, vi um homem fazendo exatamente o que eu havia imaginado. Na rua, nenhum deficiente visual para ouvir os apitos constantes de aviso.
A sinaleira apitava para a falta de educação.
Dia 5 de outubro temos eleições municipais. Não tenho vergonha de assumir que ainda não sei em quem votar para vereador.
Não voto em Porto Alegre, mas o meio sempre me fez acompanhar mais os candidatos da capital.
Porto Alegre está em todos os veículos, lógico.
Não tenho candidato. Não vejo ninguém que me agrade tanto assim.
Queria alguém nem tão novo, nem tão velho. Não vejo coerência nessa juventude e nem eficiência nos que concorrem pela quadragésima sétima vez.
Estou com a impressão de que estão passando as informações em um liquidificador e me fazendo absorver.
É uma papinha eleitoral.
Eu consigo fazer um pout-pourri de todos os jingles dos candidatos a prefeitura canoense.
Tudo bem, eu ainda me interesso por política.
Quero ver se arranjo um candidato pra Câmara.
Me preocupa o cara que aperta o botão da sinaleira sonora só por apertar.
Ele consome a mesma papinha que eu.
A diferença é que, acredito eu, ele gosta assim.
Não dá trabalho nem gasta os dentes.
Daqui um tempo, ele vai ser um dos primeiros a reclamar, no aconchego da visão, que a política não presta, que o país está indo ladeira abaixo...
Estão nos criando uma zona confortável na falta de informação.
Difícil escapar dessa rede.
Enfim, o que eu quero falar?
Em terra de cego, quem tem olho vê cada coisa que nem acredita...
terça-feira, 9 de setembro de 2008
O susto
Semana passada, senti de novo o que há seis anos conheci.
O telefone tocou na hora do jantar. Comentamos em casa - eu, mãe e irmã - que só duas pessoas nos procuravam àquela hora. Ainda foi dito "que inconvenientes". Atendi e era minha tia, com uma voz assustada, querendo falar com minha mãe. Quase exatamente como em setembro de 2002. Não fossem os pequenos detalhes...
Minha avó estava passando mal. Naquela hora, minha mãe preparava o jantar com todo o cuidado, pensando em quem chega tarde do trabalho e no almoço do dia seguinte. Elas foram na frente, eu fiquei em casa pensando "não é nada". Seguia com o trabalho culinário quando o telefone tocou novamente, dessa vez mais assustado, mais gritado.
Não sei bem quanto tempo se passou. Fato é que cheguei lá e o medo bateu forte.
A única coisa que fiz foi segurar o cachorro. Parece tão inútil, não? Segurar o cachorro: eis a única objetividade da minha noite.
Eu não sabia o que fazer. Minha avó estava ali, tão pequena na cadeira, tão frágil e branca.
Parecia como há seis anos. Parecia no dia do meu avô.
Pensei, por dois segundos, que meu coração batia diferente, no entanto. Era um compasso assustado, amedrontado, mas confiante. Dessa vez, ele não tentava se conformar.
Eu sabia que nada ia acontecer. Uma certeza que não se explica.
Passado o temor, vendo dona Suely de pé, percebi novamente meu medo, minha impotência, minha resistência ao fim.
Começaram a me avisar que não somos imortais, mesmo que isso eu já soubesse.
Não é a morte que apavora, com ela já estamos acostumados. É o dia seguinte. É o vazio que toma conta.
É a bolha de ar que domina o peito.
Mais uma vez, sobrevivemos ao susto.
E esse detalhe é que cria um abismo com setembro de seis anos atrás...
Ainda bem.
O telefone tocou na hora do jantar. Comentamos em casa - eu, mãe e irmã - que só duas pessoas nos procuravam àquela hora. Ainda foi dito "que inconvenientes". Atendi e era minha tia, com uma voz assustada, querendo falar com minha mãe. Quase exatamente como em setembro de 2002. Não fossem os pequenos detalhes...
Minha avó estava passando mal. Naquela hora, minha mãe preparava o jantar com todo o cuidado, pensando em quem chega tarde do trabalho e no almoço do dia seguinte. Elas foram na frente, eu fiquei em casa pensando "não é nada". Seguia com o trabalho culinário quando o telefone tocou novamente, dessa vez mais assustado, mais gritado.
Não sei bem quanto tempo se passou. Fato é que cheguei lá e o medo bateu forte.
A única coisa que fiz foi segurar o cachorro. Parece tão inútil, não? Segurar o cachorro: eis a única objetividade da minha noite.
Eu não sabia o que fazer. Minha avó estava ali, tão pequena na cadeira, tão frágil e branca.
Parecia como há seis anos. Parecia no dia do meu avô.
Pensei, por dois segundos, que meu coração batia diferente, no entanto. Era um compasso assustado, amedrontado, mas confiante. Dessa vez, ele não tentava se conformar.
Eu sabia que nada ia acontecer. Uma certeza que não se explica.
Passado o temor, vendo dona Suely de pé, percebi novamente meu medo, minha impotência, minha resistência ao fim.
Começaram a me avisar que não somos imortais, mesmo que isso eu já soubesse.
Não é a morte que apavora, com ela já estamos acostumados. É o dia seguinte. É o vazio que toma conta.
É a bolha de ar que domina o peito.
Mais uma vez, sobrevivemos ao susto.
E esse detalhe é que cria um abismo com setembro de seis anos atrás...
Ainda bem.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
"Love is all around"
O amor...
Ah, essa pedra no caminho.
Tudo vai bem, sua cabeça está centrada, seus planos futuros e individualistas estão começando a se concretizar e todo o tempo é seu.
Mas vem a vida e te desvia.
Nunca cheguei a falar bem sobre o que eu penso do amor. Acho que não gosto das definições existentes por aí.
Ainda assim, hoje acordei com uma frase na cabeça.
Diz ela: "Não amar é sofrer; amar é sofrer mais".
Pensei que o contrário também funciona. Acho que amar é sofrer, não amar é sofrer mais.
E explico!
Quando estamos sem amor, o que fazemos? Geralmente, nos arrumamos, saímos, conversamos, mudamos de estilo e de jeito de pentear. Mudamos tudo para, invariavelmente, encontrarmos um novo amor.
Ou canalizamos todo esse sentimento para alguma outra coisa, às vezes com pêlos e quatro patas, às vezes que engordam.
A verdade é que o amor está em tudo, está em toda a volta, está nos caçando como uma onça.
Assisti, pela quarta vez, "Closer" no sábado. Vi que as relações, no fundo, são estranhas. Quanto mais conhecemos alguém, mais achamos que conhecemos e, por isso, mais sabemos quando alguém estaria mentindo.
Só que nós não sabemos porque não queremos saber. Faltamos a aula do "Quando saber quando ele/ela mente para você". Isso acabaria com a graça. Nunca quisemos acreditar que nos mentiriam.
Então, cutucamos o outro até que ele nos diga uma verdade que nós não queremos ouvir, mas nunca descartamos a possibilidade de que ela exista.
É uma auto-mutilação.
Daí, na revolta contra as relações, ao achar que todos mentem, resolvi que ia assistir, pela quinta vez, "Simplesmente Amor".
Esse sim mostra que há esperança.
Quem estraga tudo somos nós, ao não nos sentirmos merecedores, ao achar que está tudo bem e que trair é só instinto, ao duvidar de que há, lá fora, aquela pessoa única que vai nos fazer mais feliz.
Porque sofremos sem amor da mesma maneira que sofremos amando.
É uma questão inerente ao ser.
Precisamos do outro para que saibamos para que serve essa angústia no peito.
E não há nada que possa ser feito.
Cartola diria:
"Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés"
Azar, não é?
Não amar também é sofrer...
Ah, essa pedra no caminho.
Tudo vai bem, sua cabeça está centrada, seus planos futuros e individualistas estão começando a se concretizar e todo o tempo é seu.
Mas vem a vida e te desvia.
Nunca cheguei a falar bem sobre o que eu penso do amor. Acho que não gosto das definições existentes por aí.
Ainda assim, hoje acordei com uma frase na cabeça.
Diz ela: "Não amar é sofrer; amar é sofrer mais".
Pensei que o contrário também funciona. Acho que amar é sofrer, não amar é sofrer mais.
E explico!
Quando estamos sem amor, o que fazemos? Geralmente, nos arrumamos, saímos, conversamos, mudamos de estilo e de jeito de pentear. Mudamos tudo para, invariavelmente, encontrarmos um novo amor.
Ou canalizamos todo esse sentimento para alguma outra coisa, às vezes com pêlos e quatro patas, às vezes que engordam.
A verdade é que o amor está em tudo, está em toda a volta, está nos caçando como uma onça.
Assisti, pela quarta vez, "Closer" no sábado. Vi que as relações, no fundo, são estranhas. Quanto mais conhecemos alguém, mais achamos que conhecemos e, por isso, mais sabemos quando alguém estaria mentindo.
Só que nós não sabemos porque não queremos saber. Faltamos a aula do "Quando saber quando ele/ela mente para você". Isso acabaria com a graça. Nunca quisemos acreditar que nos mentiriam.
Então, cutucamos o outro até que ele nos diga uma verdade que nós não queremos ouvir, mas nunca descartamos a possibilidade de que ela exista.
É uma auto-mutilação.
Daí, na revolta contra as relações, ao achar que todos mentem, resolvi que ia assistir, pela quinta vez, "Simplesmente Amor".
Esse sim mostra que há esperança.
Quem estraga tudo somos nós, ao não nos sentirmos merecedores, ao achar que está tudo bem e que trair é só instinto, ao duvidar de que há, lá fora, aquela pessoa única que vai nos fazer mais feliz.
Porque sofremos sem amor da mesma maneira que sofremos amando.
É uma questão inerente ao ser.
Precisamos do outro para que saibamos para que serve essa angústia no peito.
E não há nada que possa ser feito.
Cartola diria:
"Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés"
Azar, não é?
Não amar também é sofrer...
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Novas vítimas
Existe um grupo com grande expressividade na nova geração. Já não é mais um estilo inovador, ganhou força e tem uma posição sólida entre os jovens. Aliás, espalham-se como se brotassem do chão dos shoppings das cidades.
Sim, estou falando dos emos.
Não estou aqui para explicar a origem do termo, das roupas ou seja lá do que eles absorvam como característica.
Hoje em dia, quase tudo o que existe pode ser definido como emo. Roupas com bolinhas, listras, pretas, vermelhas, verdes, amarelas e todas as combinações possíveis entre elas. Calças apertadas, tênis All Star, gravatas. Pulseiras grossas, lápis de olho, unhas escuras.
Não parece que nosso mundo foi roubado?
Eis que descobri que não posso condená-los. Descobri hoje, andando pela Rua da Praia, como alguém se torna emo.
Não, não, nada a ver com gostar de ouvir emotional hardcore, essa coisa melódica, enquanto pesada; pesada, embora melódica.
Um emo é criado por diversos setores e fatos que, misturados, fazem um adolescente querer chorar num canto escuro.
Basta ter acontecido algo na sua vida, naquela semana - ou até mesmo em um único dia - que lhe deixe tristonho. Briga com a mãe, morte do cachorro, amor impossível, inacabado ou que teve seu fim, nota ruim na escola ou ter batido o dedão do pé na quina da cama.
Basta um pequeno acontecimento que cause mágoa.
Em outras épocas, você ligaria para seus amigos. Mas hoje é tudo muito caro, as pessoas estão muito ocupadas, a violência é muito grande para ficar dando mole na rua.
Ninguém pode, quer ou tem tempo para ajudar.
E ali está você com seu coração vulnerável, andando sozinho pela multidão da Praça da Alfândega, ouvindo FM para ver se surge alguma voz.
Então, uma música começa a tocar. Uma só não, uma série delas!
São bandas formadas por jovens. Eles sabem como você se sente, sabem o que te dói, sabem que terão identificação com esse público se falarem sobre isso e, o mais importante, sabem que isso vende.
Ao ouvir essa música, você pensa: Finalmente! Achei alguém pra me entender!
Sim, jovem incompreendido. Eles juram que te entendem.
Juram, também, que as roupas que usam são as mais legais e que você deveria adotar esse estilo.
Vá lá! Corte o cabelo, faça uma franja, pinte o olho de preto.
No caminho, passe na frente de muitas lojas e veja como elas também estão explorando esse estilo.
Elas sabem, bem como as bandas, o grande público consumidor que têm à disposição.
E é assim que, de repente, surge um novo emo.
Ele olha ao redor e vê que outros fizeram o mesmo.
São todos iguais. Você não está mais sozinho!
Seu vulnerável coração tristonho e solitário tem, agora, muitos semelhantes.
Todos poderão ser felizes unidos na infelicidade coletiva, que não pode terminar.
Afinal, se pararem os motivos para chorar, que graça vai ter em ser tão emotivo?
Os emos são nada além de vítimas de uma sociedade que não compreende a dor adolescente.
As novas vítimas da opressão.
Eles poderiam fazer algo meio Woodstock, mas com roupa e sem lama.
**
Eu não tenho nada contra os emos.
Até ouço algumas dessas músicas.
Tenho o potencial, por assim dizer. Só não pretendo levá-lo adiante.
Sim, estou falando dos emos.
Não estou aqui para explicar a origem do termo, das roupas ou seja lá do que eles absorvam como característica.
Hoje em dia, quase tudo o que existe pode ser definido como emo. Roupas com bolinhas, listras, pretas, vermelhas, verdes, amarelas e todas as combinações possíveis entre elas. Calças apertadas, tênis All Star, gravatas. Pulseiras grossas, lápis de olho, unhas escuras.
Não parece que nosso mundo foi roubado?
Eis que descobri que não posso condená-los. Descobri hoje, andando pela Rua da Praia, como alguém se torna emo.
Não, não, nada a ver com gostar de ouvir emotional hardcore, essa coisa melódica, enquanto pesada; pesada, embora melódica.
Um emo é criado por diversos setores e fatos que, misturados, fazem um adolescente querer chorar num canto escuro.
Basta ter acontecido algo na sua vida, naquela semana - ou até mesmo em um único dia - que lhe deixe tristonho. Briga com a mãe, morte do cachorro, amor impossível, inacabado ou que teve seu fim, nota ruim na escola ou ter batido o dedão do pé na quina da cama.
Basta um pequeno acontecimento que cause mágoa.
Em outras épocas, você ligaria para seus amigos. Mas hoje é tudo muito caro, as pessoas estão muito ocupadas, a violência é muito grande para ficar dando mole na rua.
Ninguém pode, quer ou tem tempo para ajudar.
E ali está você com seu coração vulnerável, andando sozinho pela multidão da Praça da Alfândega, ouvindo FM para ver se surge alguma voz.
Então, uma música começa a tocar. Uma só não, uma série delas!
São bandas formadas por jovens. Eles sabem como você se sente, sabem o que te dói, sabem que terão identificação com esse público se falarem sobre isso e, o mais importante, sabem que isso vende.
Ao ouvir essa música, você pensa: Finalmente! Achei alguém pra me entender!
Sim, jovem incompreendido. Eles juram que te entendem.
Juram, também, que as roupas que usam são as mais legais e que você deveria adotar esse estilo.
Vá lá! Corte o cabelo, faça uma franja, pinte o olho de preto.
No caminho, passe na frente de muitas lojas e veja como elas também estão explorando esse estilo.
Elas sabem, bem como as bandas, o grande público consumidor que têm à disposição.
E é assim que, de repente, surge um novo emo.
Ele olha ao redor e vê que outros fizeram o mesmo.
São todos iguais. Você não está mais sozinho!
Seu vulnerável coração tristonho e solitário tem, agora, muitos semelhantes.
Todos poderão ser felizes unidos na infelicidade coletiva, que não pode terminar.
Afinal, se pararem os motivos para chorar, que graça vai ter em ser tão emotivo?
Os emos são nada além de vítimas de uma sociedade que não compreende a dor adolescente.
As novas vítimas da opressão.
Eles poderiam fazer algo meio Woodstock, mas com roupa e sem lama.
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Eu não tenho nada contra os emos.
Até ouço algumas dessas músicas.
Tenho o potencial, por assim dizer. Só não pretendo levá-lo adiante.
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