terça-feira, 9 de setembro de 2008

O susto

Semana passada, senti de novo o que há seis anos conheci.

O telefone tocou na hora do jantar. Comentamos em casa - eu, mãe e irmã - que só duas pessoas nos procuravam àquela hora. Ainda foi dito "que inconvenientes". Atendi e era minha tia, com uma voz assustada, querendo falar com minha mãe. Quase exatamente como em setembro de 2002. Não fossem os pequenos detalhes...

Minha avó estava passando mal. Naquela hora, minha mãe preparava o jantar com todo o cuidado, pensando em quem chega tarde do trabalho e no almoço do dia seguinte. Elas foram na frente, eu fiquei em casa pensando "não é nada". Seguia com o trabalho culinário quando o telefone tocou novamente, dessa vez mais assustado, mais gritado.
Não sei bem quanto tempo se passou. Fato é que cheguei lá e o medo bateu forte.

A única coisa que fiz foi segurar o cachorro. Parece tão inútil, não? Segurar o cachorro: eis a única objetividade da minha noite.
Eu não sabia o que fazer. Minha avó estava ali, tão pequena na cadeira, tão frágil e branca.

Parecia como há seis anos. Parecia no dia do meu avô.

Pensei, por dois segundos, que meu coração batia diferente, no entanto. Era um compasso assustado, amedrontado, mas confiante. Dessa vez, ele não tentava se conformar.
Eu sabia que nada ia acontecer. Uma certeza que não se explica.

Passado o temor, vendo dona Suely de pé, percebi novamente meu medo, minha impotência, minha resistência ao fim.
Começaram a me avisar que não somos imortais, mesmo que isso eu já soubesse.

Não é a morte que apavora, com ela já estamos acostumados. É o dia seguinte. É o vazio que toma conta.
É a bolha de ar que domina o peito.

Mais uma vez, sobrevivemos ao susto.
E esse detalhe é que cria um abismo com setembro de seis anos atrás...

Ainda bem.

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