terça-feira, 6 de maio de 2008

Notas

Algumas pessoas andaram lendo meus textos.
Acho isso muito bom, inclusive.

Tenho algumas novas idéias e pretendo colocá-las em prática.
A primeira é que nem sempre vou escrever textos grandes, mas pequenas notas.
Pensamentos soltos.

A segunda é que vou começar uma série de textos sobre pessoas específicas. Ainda não decidi se vou manter os nomes ou vou inventar pseudônimos. Ou vou fazer os dois.
Isso eu ainda não sei.

Mas é tudo o que tenho a dizer. O importante não é o tamanho do texto, mas o que está escrito.

Leiam!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

O atraso

Eu nasci na época errada.
Fato. Fato quase comprovado cientificamente.
Eu não acredito que me atrasei para chegar.

Olho em volta e vejo o mundo em que me encontro. Vejo a vida que levo e para onde tudo o que eu faço está me encaminhando. Vejo as horas passarem, não comigo e sim por mim. Assim, me passam na frente, me escapam entre os dedos como a água fria da torneira.
Vejo as estações do ano se confundindo sem saber se devem ser quentes ou frias.
E as pessoas igualmente confusas sem saber se devem ser quentes ou frias. Boas ou más. Santas ou pecadoras.
Por mim, passam as novidades que já ultrapassam todas as recém lançadas.
E as notícias que repercutem não têm quase relevância, enquanto que os assuntos que dominam as minhas rodas são os mais inúteis.

Sinto saudade do que eu não vivi.
Invejo tudo o que me contam sobre um tempo que não é meu, e que nunca poderá ser.

Houve um período de menos conformismo, de medos mais consistentes, de lutas mais dignas.
Aliás, um período de dignidade.
Um lugar onde se comprava com menos dinheiro, onde se esquentava com menos roupa, onde as compras duravam e não precisavam ser postas fora.
Onde nem tudo era esteriotipado. A mistura é que dava o tom.
Os grupos se formavam naturalmente e não por necessidade de pertencimento. E mais! Quem fazia parte não precisava ter pensamento, roupa e fala igual. Havia mais elasticidade na aceitação.
E a ironia era pensada não como máscara para insegurança. Não era usada pelos maus, ou para fazer mal. Era uma prova de inteligência entender uma ironia. Era para ultrapassar barreiras. Era para sobreviver.
Podia-se chamar algo de questão ética. Havia ética!
Hoje uma palavra perdida em algumas cabeças confusas.
Será que tenho?Será que devo ter?

Eu queria poder sair na rua sem pensar que algo ruim vai acontecer. Eu queria poder entrar numa estrada e pensar que ela vai ter um trânsito fluente de carros. Queria chegar na minha casa de praia e ver o velho muro pequeno, com um portão fácil de abrir, sem alarme.

Me aprisionaram em uma época que não me pertence.

Não entendo porque a mentalidade humana regrediu. Vejo uma geração sem motivos para estar cansada. Ninguém nos repreende de verdade. Podemos falar mais, escrever mais, saber mais. Ainda assim, o que se vê, lê e ouve hoje é a prova da fadiga mental.

Paramos no tempo ao achar que éramos espertos demais e estávamos evoluindo.

Agora ninguém sabe o que é, o que quer, aonde vai. Só se vê o tempo passando, de longe da janela para não correr perigo. Perigo de doença, de morte, de vida, de frio.
Tudo se perdeu.

E eu, logo eu, que era tão certa nos horários, me descubro atrasada para os compromissos, atrasada nas idéias, atrasada nas visitas.
Descubro, então, que o motivo é lógico.
Atrasei na hora de nascer.
Vivo correndo atrás do prejuízo.

sábado, 5 de abril de 2008

Constatação

"Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio..."

Essa frase é parte de uma música do Pato Fu, que eu ouvia há dez anos. Na época, eu achava que entendia. Hoje eu sei que não. Não sei se algum dia vou entender, de verdade, qual a realidade do tempo.

Estou aqui, em uma manhã de sábado, trabalhando. Excepcionalmente, claro. Hoje era meu dia no rodízio de plantões.
Pois bem, a primeira hora passou. A segunda hora também. Mas agora, na terceira, os minutos no relógio digital do canto da tela parecem não passar. Ou eu que estou olhando muitas vezes, em um curto intervalo.
Não sei. Eu nunca vou entender porque o tempo é, assim, tão incontrolável.

É aquela velha história de dez segundos serem muito ou pouco. É pouco, a princípio. Mas segurando um cubo de gelo na mão é uma eternidade.
Tudo depende.

Depende do humor, da ocupação, da pressa.
O tempo é como um apelido que não gostamos. Sempre ao contrário do que queremos. Quando não gostamos de um jeito de nos chamarem, aí sim nos chamam.
Assim é quando estamos com pressa e o tempo corre tanto quanto nossas pernas. E quando queremos ir logo embora, ele parece ter sido esticado como uma corda.

Dizem que se quer que alguma coisa seja feita, dê para alguém que tenha muito o que fazer.
Pode ser. Não tenho conseguido organizar muito bem meus dias, mas corro e faço, em poucos momentos livres, tudo o que vou arranjando durante o dia.

Vi um pessoal do meu antigo colégio e me deu uma certa nostalgia dos tempos de uniforme.
Algo como estudar só pela manhã e ter dois turnos para fazer todo o resto. E o resto não era muito.

Agora, trabalho e estudo. Me sobra pouco tempo para o resto, e o resto que eu pretendia agora cresceu muito. As relações são de proporcionalidade inversa.
Irritante e ao mesmo tempo gratificante.

Passaram dez anos desde que eu ouvia aquela música.
Hoje já vou entendendo mais quando ela diz que falta um tanto para ele correr macio.
Sabe-se lá quando alcançaremos essa façanha de ver o tempo passar com calma. Sem preocupações. Vê-lo correndo macio como criança no gramado. Aquela que não tem que correr para grandes compromissos.

Falta tempo para o tempo.
Porque cada um passa de um jeito.
Cada pessoa tem o seu.

Só sei que aqui os minutos vão passando. Aos poucos, mas vão.
Pelo menos eu estou vendo como passa, melhor do que perdê-lo de vista.

No fim daquela música ela diz "tempo amigo, seja legal. Conto contigo pela madrugada. Só me derrube no final".

Antes que o tempo resolva acabar, melhor parar de reclamar dele.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Nunca fui roubada

No sábado à noite, passei a fazer parte das estatísticas.
Explico. Era uma noite boa, havia um grande motivo para sair. Resolvi ir de carro, assim poderia voltar e dormir em casa sem incomodar ninguém ao pedir que se deslocasse para me buscar. Foi para isso que fiz auto-escola, para que pudesse me locomover sem grandes dependências. É pra isso que minha família mantém seus carros. Até onde eu sei, é para isso que eles servem.
Enfim, estava sendo uma noite boa, mas algo me tocava no fundo do pensamento.
Talvez chemem de pressentimento, intuição, ou qualquer coisa que nos remeta a um saber não-evidente.
No entanto, não era. Eu sei que não era.
Era medo mesmo. Era a certeza da insegurança e de eu não ter deixado o carro em um local tão seguro quanto eu estou acostumada.
Nunca me incomodo de pagar os preços, por muitas vezes abusivos, desses estacionamentos particulares.
Tenho andado muito de trem, de ônibus, a pé. Quando meus trajetos são curtos, ou podem ser feitos por esses transportes, eu não penso duas vezes.
Mas naquela noite, vejam bem, não havia motivo para não ir de carro. Ou, ao menos, eu acreditava que não havia.
Eu vi a cara do menino que se dizia um dos guardadores não-oficiais, um desses que já fazem parte das entranhas da cidade.
Eu senti a maldade naquele olhar.
Eu vi e não tinha o que fazer.
Mas a noite, essa continuava boa, divertida, até porque era algo atípico nos meus dias. Não era uma noite comum.
Definitivamente.
A confirmação veio quando fui tentar entrar no carro e tive de forçar a porta. E entrei e percebi a ausência do aparelho de som. E, depois, quando finalmente entendi que a porta estava torta.

Nunca fui roubada, até sábado.
Eu fazia parte do número de pessoas que nunca tinham sofrido na pele o peso da impotência.
É essa a palavra: impotência. Saber o problema, ver o problema, ver o causador do problema, e não poder fazer nada.
Porque não há o que fazer, simplesmente.
Em um misto de raiva e alívio, comecei a agradecer por estar dentro do carro indo para a casa.
E, ao contar para todos a história, ouvi diversas vezes que dos males o menor. Não dá para facilitar. Uma hora ia acontecer.

Não sei por que, mas eu acreditava que não. Não ia acontecer, não comigo. No fundo, eu pensava que não tem que acontecer com todo mundo. Não pode ser tão ruim assim.
Mas é.

Devo me contentar em apenas perder um som. Podia ser pior. Podiam ter levado o carro, se não os assaltantes baratos, os que vissem a porta meio aberta. Podiam ter me rendido em um sinal qualquer, e nos levado junto. Podiam ter me apontado uma arma, como tem acontecido com tantas pessoas. Podiam ter me matado, como já aconteceu com outras tantas.
Me enoja o contentamento. A irritação que me causa essa conformação com o menor dos males me tira a paciência.
De nada adianta, mesmo assim. Devemos sofrer calados.

Embora toda essa situação, mesmo com toda a minha raiva do que aconteceu, mesmo com toda a estatística e a insegurança, eu ainda acredito que temos saída.
Devemos ter.
Às vezes acho que assistimos, sem saber, à morte da última esperança. Mesmo que ela fosse a última a ir embora...
Mas devemos ter uma saída.
Só espero que acendam logo as luzes que indiquem onde elas estão, e nos mostrem por onde ir.
Sim, acendam as luzes. As luzes de emergência. Porque se há saída, só a de emergência.
Mulheres e crianças primeiro. Saiam todos com calma.
Alguém ainda vai mostrar o caminho para voltar a segurança.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Postando

* Tenho vinte minutos e me deu uma vontade enorme de escrever.
Não sei bem se tenho um assunto. Sei que tenho, ao menos virtualmente, uma página em branco.
Quero escrever agora pra não perder o fio de inspiração.
Primeiro texto do ano. Vamos ver.



Sempre me disseram que tudo muda enquanto é possível. Algo incontrolável, acredito.
Afinal, se mudam sem querer, é porque nós não conseguimos fazer parar.
Talvez aquela história de destino, de momento, de pensamento.
Fechar a porta mas sair pela janela, entrar pela janela, abrir a janela.
Seja lá o que queira ser feito com a tal janela.

Entendo isso cada vez melhor.
Entendo melhor de janelas agora.
Vejo que as portas enganam. Bom mesmo são as janelas.

Explico: sabem quando estamos vivendo uma situação que parece confortável, que acreditamos certa, que juramos que vai durar? Ou melhor, que juramos nos fazer bem? Sabem como é?
Isso é uma porta. É grande, é promissora, parece ser o caminho.
A porta parece ser o único meio de entrar, até que fecham.
Fecham a porta na nossa cara. Batem. Trancam com duas voltas na chave.

Nos fazem acreditar que perdemos o único meio de seguir em frente.
Perdemos por onde entrar e sair.

Aprendi uma vez que era feio pular a janela. Não é para isso que foi feita, afinal, a abertura na parede.
Foi feita para arejar, para iluminar, para abrir e fechar.

Agora, e cada vez mais, aprendo que quando me tiram a porta, eu devo procurar a janela.
Tenho que ter a perspicácia de pular.
Tenho que arriscar a janela. Colocar uma perna, depois a outra.

Parando para analisar, um prédio tem sempre mais janelas do que portas.
Viajando, então, em uma comparação quase infantil, a vida é um prédio.
São poucas as situações que, como portas, vão se abrir de maneira segura. Demoramos até acharmos essa facilidade de, simplesmente, passar pela porta.
E, tão logo abertas, se fecham. É muito vulnerável uma porta aberta.

Mas a janela? Deixa ela encostada, só.
Deixa entrar um ventinho.

Minhas mudanças atuais se devem ao incrível número de janelas que encontrei.
Do nada, vi raios de sol atravessando as persianas e revelando as tais aberturas na parede.

As portas só abrem e fecham. Mas a janela aberta dá luz, areja...Se fechada, impede o frio de incomodar.
Podemos controlar o quanto queremos da janela. Qual a importância que queremos dar a ela.
A vida melhora quando descobre-se como são essenciais, embora menores.

Cansei das portas.
Bom mesmo são as janelas.
Repito para confirmar.



* texto mais para não perder o hábito.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Exaustão

Não é incrível como as pessoas têm a mania de explorar uma mesma coisa até que ela se esgote?

É escândalo político, estilo musical, moda, filme, a traição de alguém próximo, a nova namorada do ex. Não importa! As pessoas falam, invariavelmente, de um mesmo assunto por dias!

Não sei pra vocês, mas, pra mim, as coisas vão perdendo o sentido quando ficam muito comuns.
Perdem seus motivos especiais, seus atrativos.

E estou eu, no centro de Porto Alegre, à tarde, ouvindo rádio nos fones de ouvido. Era um dia extremamente quente. O centro fica um inferno em dias muito quentes.
Precisava fazer compras, o que me impedia de fugir daquela caldeira.
Na rádio começa a tocar a trilha do filme "Tropa de Elite", música essa que leva o mesmo nome, e que foi lançada há uns cinco anos, se não muito me engano.
Troco de estação. Já tinha ouvido a mesma música em umas três estações diferentes pela manhã.
Em outra estação, toca a outra música da trilha. Um funk que também foi lançado há uns três ou quatro anos. E que eu também já tinha ouvido umas outras tantas vezes pela manhã.
Ao redor, as pessoas inserem em suas conversas vários "Pede pra sair!", "Você é um fanfarrão!", "Traz o saco!", frases do Capitão Nascimento, personagem que só me fez gostar mais ainda do Wagner Moura.

Me revoltei.
Assim, a ocasião e o meio favoreciam. Lembrem que estava muito quente e eu não podia ir embora ainda.
Comecei a pensar que eu gostava dessas músicas quando elas foram lançadas. E que elas pararam de tocar, numa espécie de lei natural. Mas agora elas ressurgem e parece uma lavagem cerebral o que estão fazendo comigo!
Eu gostei muito do filme, também. Vi no cinema, inclusive. Adorei as expressões. Mas agora, aonde quer que eu vá, para onde quer que eu olhe, tem alguém falando igual.
Perdeu-se a personalidade, o direito de escolha, a crítica.
Todos agora são aspirantes do BOPE. Alguns já nasceram Capitão Nascimento. Não tem problema conhecer uma pessoa e esquecer o seu nome, chama ela de 02, ou 05, ou oseilaoque. Chama de "aspira"!

Eu acho o Wagner Moura um grande ator. Mas vejam bem, eu já achava antes! Há muito tempo! Antes de novela das oito, antes de ser "o cara do filme do ano".
E agora todo mundo gosta. Agora todo mundo canta funk e Tihuana. Agora todo mundo acha bonito.

Mas perdeu a graça pra mim, um pouco.
Já estou na fase de tudo precisar de um contexto especial para fazer sentido.
As brincadeiras devem ser poucas e espaçadas. As músicas só são boas se mixadas e uma vez por dia.

Estou me desintoxicando.

E pensando nisso, andando no centro, vejo que os problemas sociais não são tão comentados. É como se varrêssemos pro tapete. Se fossem tão discutidos quanto o que nos diverte, talvez a sua saturação trouxesse a solução.
Os próprios problemas do filme não são tratados com a seriedade que deviam. De verdade, aquilo acontece todos os dias. E não é pouca coisa!Não devia ser engraçadinho.

Mas é. É porque não parece valer a pena se preocupar com isso.
A exaustão do assunto nos deixa exaustos demais para tamanho estresse.

No meio de todo esse discurso politizado, que surgiu na minha cabeça naquele dia escaldante, aparece um palhaço em cima de suas pernas-de-pau, com um frango de borracha na mão.
E não gosto de palhaços. Acho estranho, tenho receio. E fui atacada por vários desses, em vários centros. Até no shopping já me atacaram, com um similar frango de borracha.

Enfim, o palhaço, naquela altura toda, pára na minha frente e bate na cabeça do frango dizendo: pede pra sair!Pede pra sair!

E eu ri.
Não tinha outra saída a não ser essa.
Não tem mais saída.

Esse mundo tá perdido, mesmo.
Que medo.


Conclusão: eu ainda gosto do filme, e veria de novo no cinema. Eu sei a letra de uma das músicas, a outra é muito difícil pra mim. Eu ainda acho o Wagner Moura muito bom ator. E eu não gosto mesmo de palhaços.

Já andei contando essa história por aí.
Publico para a posteridade, então.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

O Senhor das Flores Mágicas

Sempre tento encontrar, nos meus caminhos de trem, pessoas peculiares. Não digo estranhas. Ninguém precisa ser estranho para ser diferente. Mas elas trazem alguma coisa que chama a atenção, não sei por quê.

Pois esses dias, ao entrar no vagão, achei de cara o meu personagem. Era um senhorzinho que vende essas flores mágicas, feitas de papel colorido e presas em dois palitos de picolé. Quando abertos os palitos, elas começam a tomar forma. A princípio, parece um arco-íris. Depois viram bolinhas, até chegar ao formato de uma cabeça com chapéu.
Muito simples elas são. Um brinquedinho sem grandes atrativos. Certamente, em um ou dois dias a criança cansa dos mesmos formatos que a fita adquire. Não tem muita graça.

Enfim, esse senhorzinho estava sentado ao lado de um menino e mostrava para ele as várias formas para as fitas. Juntava mais de uma. Fazia com três! Criava movimento, situações, até um carrinho ele fez. O menino até estava atento, mas em alguns momentos ele olhava pra mãe como se dissesse: eu não quero isso. Quero meu Playstation 3 novinho, quero jogar no computador também. Isso é muito chato para a minha geração.

Mas o senhor seguia fazendo suas brincadeirinhas. E eu achando muito bonito toda aquela brincadeira manual, que me lembrava alguns dos meus passatempos favoritos da infância. Eu não tinha tudo isso que as crianças têm hoje em dia. Nem os brinquedos tecnológicos, nem a esperteza informatizada, nem os quilos a mais do sedentarismo. Eu corria na rua, pegava aquelas molas coloridas e passava de um lado ao outro. Eu fazia esporte. Eu tinha bonecas, brinquedos que me faziam pensar e que ativavam minha coordenação. E eu era muito feliz, sim.

Enquanto eu pensava isso, o senhor atende um celular com um ringtone bem moderno. Vi que ninguém estava livre do hiper-moderno. O senhor perdeu um pouco da magia e eu parei de observá-lo. Voltei a ouvir música nos meus fones de ouvido. Todo mundo anda se isolando no trem através dos fones. Eu não quero ficar sozinha, também.

O trem pára e entra um outro menino, praticamente, voando, acompanhado da mãe. Atropela todo mundo no vagão. O senhor, então, se levanta oferecendo seu lugar para mãe e filho. O garotinho aceita, feliz, para ficar de pé em cima do banco. E o senhor, de pé no vagão, na minha frente.

Ele mexe nas flores. Eu olho sorrindo. Ele começa a conversar comigo, contando que aquilo é arte inventada para acalmar as crianças, mas que as pessoas não valorizam a arte.
E eu prestei atenção, de verdade. Conversei com o senhor e fui vendo a magia ser recuperada. Ele me contando histórias de sua vida, em pouco tempo, e eu ouvindo, com os fones de ouvido já pendurados no pescoço.

O senhorzinho tinha razão. Falta calma para as crianças. Falta valorização da arte. Falta que a educação que ele tinha fosse dada para aquele menino voador.

Mas a última estação se aproximou, e o trem parou.
Nós descemos. A vida segue.
Eu levando a magia que ele tinha me passado. Ele indo levar mais para os outros.

Ele pode até ter se rendido às tecnologias da telefonia móvel. Mas a essência segue intacta.
E isso, felizmente, não se compra por aí.